Quem acompanhou mais de perto sabe que Guilherme não estava nada feliz com a mudança de Cabo Verde. A primeira reação dele, quando falamos que iamos mudar de novo, foi de entusiamo e sempre que ficava com raiva de algum amiguinho dizia logo que ia embora e nunca mais queria vê-lo. Mas isso durou pouco, depois veio a fase mais longa e difícil de administrar, a do eu não quero ir. Ele sempre deixou bem claro que queria mesmo era ficar em Praia, com os amigos de lá Ai, começaram as birras, daquelas de cinema. Por sorte os "ataques" eram dirigidos ao João e a mim, mas podiam acontecer em qualquer lugar e sem aviso prévio. Quando finalmente comecei a guardar os brinquedos a coisa complicou. No meio da confusão que é uma mudança tinhamos que encontrar paciência e explicar pela N'essima vez a nossa vida de cigano. Meus sentimentos passaram a ser os deles, me partia o coração ver que ele sabia exatamente o que estava acontecendo e ainda mais quando tinha que explicar que ia demorar algum tempo ate ele rever os amigos, eu também sentia saudades antecipadas dos meus amigos.
A nossa passagem pelo Brasil não sei se ajudou ou atrapalhou o processo. Se por um lado ele ganhou os mimos dos avós e tias, por outro ele precisava de algo mais permamente, quando deixamos o Brasil ja estavamos vivendo das malas tinha três semanas. Dai para frente tudo era novidade para ele.
Nosso primeiro mês em Mendoza foi dividido entre o hotel e a casa de minha tia, onde os gatos ficaram hospedados. Tudo estava distribuido entre os dois lugares, afinal, o quarto do hotel era apertado para as nossas cinco malas. Em meio a isso tudo Guilherme começou na escola e nosso pequeno percebeu que nossa vida agora é aqui.
Por falar em escola, o Guilherme adora a escola, nunca antes ele chegou em casa contando o que fazia na escola, ou cantando as músicas, falando dos amiguinhos, da professora. Acordar de manhaã ainda e um problema, mas devagarinho ele vai ... As palavreas em espanhol começam a aparecer e ele adora repertir
chiquitito. Assim como quando começou a
falar criolo, sabe bem a quem se dirigir com que idioma, tem momentosem que eu escuto ele repetir palavreas aleatórias em espanhol, principalmente os números (uno, dos, tres, cuatro, cinco ...), as vezes são animais, de manhã quando o visto vai repetindo o nome das peças de roupa em espanhol. A TV passa boa parte do dia liga, sempre em espanhol, e ele pergunta o que não entende e eu explico, tem horas que a TV ajuda.
A noite, na hora de dormir, conversamos, quase sempre ele pergunta pelos amigos, Catarina, Rafa, Karim, Matheus, Anna ... vou contando o que eles estão fazendo (viva a internet e o facebook!) pergunta quando vem visitar (ALÔ Marta, Sofia, Adriana ...), quando vê um yorkshire pergunta pelo Yuki. Assim a vida dele vai ganhando nova prespectiva. O xixi na cama voltou e ainda não foi embora, ele tem comido bem menos (já comia pouco) e está ainda mais seletivo. Não é fácil, ninguém jamais me disse que seria, queria muito localizar mais blogs que falassem mais sobre isso de forma honesta, sem medo de tornar publicas as dificuldades.
Já temos uma rotina estabelecida, mas a casa ainda está vazia, apenas o básico para comer e dormir. Ele sente falta das suas coisas de se identificar com o lugar. Em meio a tudo isso ele vai crescendo e amadurecendo. Já aceita ser chamado de
Guille e por vezes nem reclama do
Guillermo, mas sabe bem que seu nome é GUILHERME. Outro dia, fomos jantar com amigos que estavam por aqui de passagem e o Guilherme ficou muito contente em rever o filho deles, tão feliz, que correu para a prateleira de livros e escolheu dois dos seus livros para dar ao Hugo para a viagem de avião. No jantar, o Guilherme recebeu um presente e na mesma hora correu para a minha bolsa para pegar os dois livros. Ficou tão feliz meu filho e eu, orgulhosa. Finalmente, os anos falando sobre a importância de dividir estão se pagando e ele agora faz as coisas naturalmente, sem se sentir coagido pelo olhar reprovador dos pais ou obrigado, o que é ainda pior. À todos que chegam aqui em casa ele mostra as suas plantinhas e feliz fala que foi ele quem plantou.
* hoje é o dia das mães aqui na Argentina e decidi que era o dia ideal para falar do meu filho, afinal, sem ele não seria mãe. Outra hora eu volto para falar da festa na escola.