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quinta-feira, 12 de abril de 2012

Blogagem Coletiva: Infancia Livre de Consumismo


Eu cresci em uma casa com apenas uma televisão e quando chegou a TV colorida eu tinha uns 10 anos! Como estudava de manhã, quase não assistia os programas infantis da época, até mesmo o Sitio do Pica Pau Amarelo, que passava no final da tarde, eu via por que era justo na hora da natação. Em casa tampouco se assistia novela, minha mãe era (é) categoria ao afirmar que se tratam de programas vagabundos (e tem razão). A maior parte das referencias televisivas da infância dos meus amigos eu não tenho, mas isso eu percebo hoje, passada dos trinta. Aos domingos víamos os Trapalhões, muito mais por que meu pai via do que por que fosse adequado para a gente, e quando estávamos doentes em casa podíamos ver TV. Eu não lembro da gente pedir pra ver TV e meus pais não deixarem, era mais como se ela não existisse.
Isso não fez com que eu adulta não gostasse de TV, na verdade gosto muito, minha experiência de trabalho é em telejornalismo (assessoria foi uma fase curta), vejo muita TV, mais até do que deveria, tenho um vicio em telejornal, vejo pra criticar mesmo, mas odeio a propaganda, principalmente por pagar pela TV e ainda ser obrigada a perder tempo com publicidade. Pagaria o dobro só pra não ter propaganda! E digo com tranquilidade que muito pouco do que consumimos aqui em casa é por conta da publicidade na TV.

Sou terminantemente contra a publicidade voltada para as crianças e sei que o mercado não é capaz de se auto regulamentar, pelo menos não ainda. Usar o argumento da liberdade de expressão é uma falácia uma vez que as liberdades coletivas sempre sobrepõe às individuais e sejamos sinceros, todos sabemos que o anunciante quer mesmo é vender. Se a Suécia, que é o pais das "liberdades" achou melhor proibir! Como vivemos em uma sociedade de consumo é preciso ensinar as crianças desde cedo que o ser é infinitamente melhor do que o ter, que a marca do brinquedo não garante a diversão e a roupa ou sapato protegem o corpo independentemente da marca. Mas e quando o produto não é voltado para crianças e a publicidade tem um claro apelo infantil?
Depois de muito pensar sobre o tema decidi a propaganda de brinquedos e outros produtos infantis ou o lanche com brinquedo não me incomodam tanto e eu sei como lidar com ela. O que eu nunca tinha parado para pensar foi em todos os outros comerciais que meu filho assiste nos canais infantis até o dia que ele quis palpitar na marca no produto de limpeza que eu uso. Como assim Bial? Eu, ingenua, pensava que toda aquela propaganda de desengordurante, desodorante de ambiente e tal era para as mãe que assistiam a TV com os filhos, até por que de vez em quando aqui na Argentina rola até comercial de produtos para higiene feminina. Claro que não! A ideia é que os filhos endossem o produto sem nem ao menos terem ideia de para que serve. Entra em ação um musculoso super herói que ajuda a mãe a limpar a casa mais rápido e melhor, ou o que dizer dos simpáticos animais que tem a casa perfumada? E não podemos esquecer da propaganda do Pedrinho, será que é só por que seria estranho usar um adulto dizendo que quer usar o banheiro do vizinho?
Quando chegamos aqui na Argentina uma propaganda em particular me chamou a atenção: era de maionese, o protagonista, um menino de uns 8 anos, contava todas as artimanhas usadas pelos pais para fazer com que ele comesse até que a mãe comprou a dita maionese e tudo mudou, tudo ficou gostoso e agora o menino come e os pais podem ficar tranquilos. Sério? Faz tempo que procuro o vídeo e não encontro. É tosco, mas passava onde? Num canal infantil!

Aqui em casa assistimos muito pouco da TV aberta e a TV paga vem de toda a América Latina. Dos canais infantis o que eu sei que é todo produzido aqui é o Disney Junior e a publicidade é de seus produtos e produtos franqueados Disney, o Discovery e o Cartoon tem propaganda de vários países, principalmente Colômbia e Venezuela, que é de onde vem uma das propagandas que mais me incomoda.


Que criança, depois de ver esse comercial, não vai querer que a mãe compre o produto que faz com que a roupa não precise ser passada e ela tenha tempo para brincar? O detalhe é que assim do lado, quando aparece a simulação do "Adios al planchado" vem a informação de que o produto apenas facilita o trabalho, não elimina completamente a necessidade de passar a roupa. Ah! é? Mas a criança não vê isso, nem eu reparei de primeira.
Mas tem também a publicidade no radio, no jornal, na revista e aquela que vemos nas ruas, dentro das próprias lojas. Recentemente, Guilherme, que nunca foi de comer biscoito recheado, passou a pedir e o motivo? Não, ele não passou a gostar do biscoito, o que ele gosta é do adesivo que vem na embalagem e que eu nem sabia que vinha. Aqui na Argentina é uma mania isso de por adesivo escondido nas porcarias coisas para crianças. Mas a coisa complicou na escola e as professoras pediram para não levar mais essas embalagens. Outro dia o Guilherme pediu para eu só comprar o danoninho do Alvim, é que nele também vem adesivo e no outro não.

Aqui na Argentina o sistema é similar ao brasileiro, o da auto regulamentação, não localizei nada sobre proibição, nem mesmo debates sobre o tema. Em casa optamos por não cortar a TV, mas explicamos ao Guilherme que não compramos produtos que anunciam nos canais infantis. Isso começou em Cabo Verde, onde a TV vinha e Portugal e a maioria dos produtos sequer estava disponível no mercado local e até hoje funciona.

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4 comentários:

Michelle disse...

Oi, Neda!

Minha mais velha tem 4 anos e ainda não pede. Mas também quase não vai às compras. Qdo vai, falo que temos que ir comprar o que está na lista, se não está na lista, é porque não precisa. Mas sei que ela vai crescer e mudar de comportamento, criança é assim, por fases.

Em geral, penso como vc. Algumas coisas incomodam, outras nem tanto. Detesto o tal do danoninho e nem se viesse com uma bicicleta na embalagem eu compraria. Mas explico pra ela porque prefiro comprar outro iogurte em vez daquele "negócio". Nem sempre ela aceita algumas explicações, assim se vai levando. O importante é que não passa em branco e a publicidade perde credibilidade diante das crianças que têm pais que a desmerecem. A idéia dessa Coletiva é ótima, é preciso mesmo alertar para que nunca o lobo se passe por cordeiro. Um texto como o seu atenta para mtos aspectos que outra mãe não perceberia. Como eu, por exemplo.

Um abraço,

Michelle

Paloma, a mãe disse...

Maravilha, Neda, ótimo saber da sua experiência e de como é aí na Argentina!
Beijos

Izabelle disse...

excelente! Vai chegar a hora de eu ter que conversar com minha pequena também...uma abraço para voce e João!

Livia, mãe da Carol disse...

Neda,

gosto da forma tranquila que vc lida com alguns dos desafios da maternidade.

Tive uma infância parecida com a sua. Minha mãe é movida a música e meu pai achava muitos programas de tv porcaria. Até hoje não sou fascinada por televisão e passo dias sem ligar a televisão, acredite. Já o cd fica ligado o dia todo.

Aqui em casa eu procuro ser maleável. Não acho legal a propagando voltada para o público infantil, mas não cortei a tv por isso. Gosto do Nick Jr. pq não tem anúncio e Carol não tem muita paciência para o intervalos. Alguns desenhos eu não gosto, mas nunca disse isso pra Carol, apenas não coloco e ela nunca questionou.

Quanto aos biscoitos que vendem a imagem de um personagem, nunca tive problemas pq a Carol não come, ela não gosta mesmo. Outro dia ela me pediu pra comprar um iogurte que tinha no rótulo umas margaridas, era uma edição especial pela primavera e, eu comprei.

Dificilmente compro camisetas de personagens pq acho feio e ela nunca insistiu tanto, mas se um dia quiser, não vejo problemas. Na minha opinião, qualquer coisa em demasia é prejudicial e eu tento ser uma mãe da coluna do meio, digamos.

Não permito que ela veja, por exemplo, novela, mas não crio nenhum tipo de climão. Qdo Paulo está vendo algum filme que não está de acordo com a idade dela, eu subo com pra ler um livro pra ela. Prefiro fazer de uma forma que ela não perceba a ter que virar uma discussão e despertar nela um interesse.

Em alguns casos não dá pra fazer isso. Até mês passado eu tomava coca cola e ela pediu algumas vezes, mas eu não dei. Uso a mesma regra da bebida alcóolica. Digo que é bebida de adulto. Outro dia uma amiga dela tomou e ela veio me questionar pq a menina havia tomado se é uma criança e eu expliquei que não era saudável. Pronto, ela não tocou mais no assunto.

Por incrível que pareça, acho mais fácil lidar com os desejos do filho do que com as pessoas que insistem em achar um absurdo a gente ter optado por não deixar ver novela, tomar coca cola etc.

Beijos.