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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Situação no Haiti

Segue o relato do Oficial de Chancelaria Rafael Beleboni, que está servindo em Porto Principe, Haiti.

Prezados amigos e familiares,

A situacao no Haiti segue bastante complicada, novos abalos de tempos em tempos tem feito cair as estruturas mais comprometidas pelo primeiro terremoto. Ainda ha muitos corpos pelas ruas e tanto a policia nacional quanto a minustah tem retirado mortos e feridos dos escombros e tentado prestar socorro. A iluminacao publica foi cortada desde o primeiro dia e nos ainda conseguimos nos comunicar gracas aos geradores, enquanto durar o combustivel. nao ha meios de comprar comida ou agua, tudo esta fechado nas ruas. Ha milhares de pessoas acampadas sobretudo nas pracas publicas, mas tambem ao longo das ruas, se protegendo fora das casas e construcoes. Com a crise de abastecimento e falta de banheiros comecam a cheirar forte os dejetos humanos e os corpos ja em decomposicao. Muitas ruas estao obstruidas e o acesso e socorro estao muito dificeis, fazendo com que, com o passar do tempo, as chances de resgatar pessoas com vida diminua. Ainda nao sabemos se seremos evacuados do pais, por enquanto estamos mantendo uma estrutura provisoria pra tentar contato com os brasileiros desaparecidos, porem a comunicacao via telefone e internet esta extremamente dificil. Sabemos de muita gente que ja conseguiu sair do pais, me parece que o pessoal das agencias da onu estao na log base que fica ao lado do aeroporto, acho que de la serao expatriados, senao todos a maioria.
Nos ainda estamos bem, o pior com certeza ja passou para aqueles que como eu escaparam, por um milagre ou por acaso. Apesar do clima de solidariedade que impera em larga medida, o que nos preocupa agora sao os possiveis levantes e manifestacoes que impreterivelmente levarao a populacao a invadir casas em busca de suprimentos, como seria normal nessa situacao, sobretudo porque falamos aqui em numeros assombrosos de pessoas que perderam tudo em um pais ja miseravel.
Nao sei se poderei ainda me comunicar desde o Haiti, pois a cada dia a situacao piora no que concerne as comunicacoes. Tenho certeza de que nos, os brasileiros vivos, seguiremos bem e em seguranca. Contaremos com a ajuda do batalhao brasileiro da minustah, da embaixada e dos amigos haitianos no que pudermos precisar.
Quanto a esse pobre pais, nao consigo imaginar o que sera dele. Eh dificil para nos, que estamos ilhados e sem muitas informacoes sobre a situacao, mensurar a intensidade do ocorrido a nao ser pelo que ate agora temos vivido. Uma catastrofe como essa atinge de maneira simbolica os pilares da nacao haitiana, e os resultados disso sao tao imprevisiveis quanto o terremoto em si. A reconstrucao, a maneira em que ela sera possivel, sera lenta e dolorosa, e nesse momento eh preciso toda ajuda, medicamentos, comida, barracas, e principalmente medicos, bombeiros, gente preparada para efetuar resgate e lidar com a situacao. As perdas sao horriveis, indescritiveis e inacreditaveis. Demorara para nos darmos conta de que as pessoas com as quais conviviamos e os lugares que frequentavamos simplesmente nao existem mais. Todos nos que escapamos estamos operando um pouco por algum tipo de inercia inconsciente, ainda nos dando conta do ocorrido enquanto tentamos contato com as pessoas que seguem desaparecidas ou sem dar sinal de vida.
Desculpem a pressa e a falta de acentos. Por favor repassem pra quem me conhecer ou conhecer alguem aqui. Para obter informacoes oficiais entrem em contato com o itamaraty em brasilia.

Abraco a todos e a todas, continuem mandando forcas e preces.

Rafael Beleboni

Um comentário:

Paloma, a mãe disse...

Muito bom este relato. E que tristeza...